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O TAO DA CURA
Editora Ground, São Paulo 2011




CONCEITOS BÁSICOS DA MEDICINA CHINESA
Deve haver muitos leitores que conhecem os conceitos básicos da medicina chinesa; se não conhecerem, poderão encontrar neste capítulo uma introdução sucinta ao Yin e Yang, à visão chinesa dos órgãos, os canais de circulação da energia ou meridianos, a força vital chi e o sistema dos Cinco Elementos.

YIN e YANG
Embora hoje em dia os conceitos de "Yin" e "Yang" façam parte da linguagem comum, são utilizados com freqüência de maneira imprecisa. Uma das razões é que conhecemos o Yin e o Yang tanto na cultura chinesa quanto na cultura japonesa. Essas duas culturas têm um conceito diferente e a definição de Yin e yang varia entre elas, Muitas vezes são as mesmas pessoas que seguem uma dieta macrobiótica, fazem um tratamento de shiatsu, interessam-se por Feng Shui e consultam um médico ou terapeuta que cuida delas com medicina naturista ou com acupuntura. O shiatsu e a macrobiótica pertencem à cultura japonesa, o Feng Shui e a acupuntura praticadas aqui são oriundas da China.

O ponto de vista oriental de Yin e Yang considera tanto a realidade espiritual quanto a material dos efeitos de dois pólos ou forças opostos que, por sua vez, são dependentes um do outro: Yin e Yang. Essa maneira dual depensar não nos é estranha. As raízes da cultura ocidental – tanto do helenismo e de suas filosofias ou religiões, quanto da cultura judaica e cristã – baseiam-se numa dualidade básica. Encontramos essa dualidade em conceitos como "matéria" e "energia" na física, bem e mal, céu e terra, cristianismo e islamismo, e igualmente nos sistemas binários de nossos ordenadores. Esse parentesco básico e espiritual deve ser a razão principal pela qual o Ocidente adotou uma parte muito maior do patrimônio cultural do Japão e da China do que, por exemplo, dos índios norte-americanos ou dos dogons da África Central.

Mesmo assim é importante compreender que existe uma diferença fundamental enter o conceito oriental de Yin e Yang e o princípio de dualidade do Ocidente. Yin e Yang são dois opostos que, juntos, formam uma unidade. Um depende do outro e são realidade somente em união com seu pólo oposto. O símbolo que conhecemos de Yin e Yang representa a lei universal da eterna transformação. Significa que um deles, quando chegou a seu apogeu, transforma-se no outro. O ponto branco dentro do campo negro e o ponto negro dentro do campo branco significam que a essência de um contém em seu núcleo a essência do oposto. Isso sugere portanto que não há nada que seja apenas Yin ou Yang, negro ou branco, feminino ou masculino, magnético ou elétrico, passivo ou ativo, bom ou mal, escuro ou claro. Significa que as mulheres também têm características masculinas e os homens, qualidades femininas, que uma maldade pode ter algo de bom e um ato de bondade pode transformar-se em seu oposto.

Yin e Yang não são conceitos absolutos. Atuam sempre relacionados um com o outro e descrevem a qualidade relativa dos diversos fenômenos e manifestações, e as relações entre a realidade física e a realidade imaterial. Um exemplo: no corpo humano, o peito é definido em relação às costas como Yin; mas, em relação à pélvis, ele é Yang. Outro exemplo: em relação ao dia se diz que a noite é Yin, mas em relação à abóboda negra do Universo a nossa noite na Terra é Yang, pois, ainda que pouca, contém uma pequena quantidade de luz.

A cultura ocidental tende, ao contrário, a pensar em conceitos absolutos. Nossa educação nos ensina a diferenciar claramente entre o bem e o mal. Nos filmes clássicos de bangue-bangue, o herói usa um chapéu branco e é simpático, enquanto os bandidos usam chapéus pretos, não estão barbeados e, além disso, são antipáticos. A maioria dos filmes policiais segue um modelo muito simples: os bons e os maus estão desde o princípio claramente marcados, não se transformam no decorrer da história e o final está claro: o mau morre.

O símbolo de Yin e Yang descreve outra visão da realidade: nem Yin nem Yang podem ser considerados maus ou bons. O símbolo de Yin e Yang mostra uma forma e uma maneira através da qual as coisas se transformam. Trata-se de uma descrição, e não de um juízo de valor. Expressa que os opostos se atraem, que se condicionam mutuamente, e que cada coisa e cada processo se converte cedo ou tarde em seu contrário. As seguintes combinações de Yin e Yang reproduzem a visão chinesa que, como já dissemos, pode variar em termos de aplicação e pode diferir dos conceitos japoneses. Quando se utiliza as categorias de Yin e Yang, é importante tomar consciência da natureza relativa e das polaridades descritas.


CARACTERíSTICAS GERAIS
Y I N Y A N G
Matéria Energia
Próton Elétron
Força centrípeta Força centrífuga
Solidificação Expansão
Movimento descendente Movimento ascendente
Terra Céu
Horizontal Vertical
Escuridão Luz
Noite Dia
Frio Calor
Lua Sol
Prata Ouro
Inverno Verão
Fim Princípio
Negativo Positivo
Feminino Masculino
Mole Duro
Entrar Sair
Quietude Movimento
Lento Rápido
Dentro Fora
Receber Dar
Molhado Seco
Campo de gravitação Crescimento
Raiz, tronco Galhos, folhas
Fruto Germe, brotos
Base Ácido

CORPO E PERSONALIDADE
Y I N Y A N G
Parte da frente Parte de trás
Metade esquerda Metade direita
Parte inferior Parte superior
Tronco Membros
Pernas Braços
Pélvis Cabeça
Órgãos compactos (Zang) Órgãos ocos (Fu)
Yong Qi Wei Qi
Sangue Energia
Encolher Esticar
Tranqüilidade e repouso Movimento e ação
Digestão e reprodução Luta ou fuga
Parassimpático Simpático
Acetilcolina Adrenalina
Ritmo cardíaco Ritmo respiratório
Instinto Inteligência
Introvertido Extrovertido
Silencioso, calmo Falador, esperto
Os pés na terra Prazer em experimentar
Conservador Progressista
Contemplativo Excitável, reativo
Depressivo Eufórico

A VISÃO CHINESA DOS ÓRGÃOS

A cultura chinesa tem uma visão dos órgãos e tecidos completamente diferente da ocidental. A razão é que os chineses não vêem o corpo e a alma como entidades separadas, como nós. Na medicina chinesa, cada órgão tem não só uma função psicológica, mas também emocional, intelectual e espiritual. Não considera o cérebro a sede da alma e do espírito, e sim cada célula do corpo e também o campo magnético do organismo. Por conseguinte, os órgãos internos são entendidos como unidade corpo-alma-espírito; não são definidos como formas anatômicas com funções psicológicas simples. Cada órgão é, portanto, parte do conjunto da personalidade, e suas ações recíprocas com outros órgãos são de importância vital para a plenitude do sentir, pensar, querer e atuar.

Por esse motivo, os órgãos não são vistos como unidade funcional psicológica, e sim como expressão das cinco forças elementares em intercâmbio constante. Corpo, alma e espírito são considerados formas de expressão dos cinco elementos que constituem a raiz comum dos mais diversos fenômenos da vida. A visão dos órgãos difere tanto que nem sequer coincidem com as definições anatômicas. O estômago, o duodeno e os primeiros quinze centímetros do intestino delgado, por exemplo, são considerados pela medicina chinesa como um único órgão, o Estômago. Os chineses concebem o processo da digestão – o desdobramento dos alimentos em partes isoladas, um processo que se inicia na cavidade bucal, e a absorção de carboidratos, albumina e gorduras sobretudo pela parte inicial do duodeno – como tarefa de um único órgão, o Estômago, ao qual se atribui, sendo Yang, ou um órgão oco, o elemento Terra.

Outro exemplo: a compreensão chinesa do baço não compreende somente este órgão, mas também o pâncreas e todos os tecidos linfáticos e o resto dos órgãos de nosso corpo. Por isso este órgão é chamado de Baço-Pâncreas. A função principal do Baço-Pâncreas é a construção e manutenção da substância física. Nesse sentido é que se junta ao pâncreas, que produz a maior parte das enzimas da digestão e todas as células e órgãos que constituem a base física do sistema imunológico, como as amídalas, os gânglios linfáticos, as plaquetas Peyer e a polpa branca do baço em um só órgão, o órgão Yin do elemento Terra.


Os órgãos Zang e Fu

A medicina chinesa distingue seis órgãos Yin e seis órgãos Yang. Os órgãos Yin são chamados de Zang; o ideograma que representa Zang significa "compacto" ou "sólido". Os seis órgãos Zang têm uma consistência mais compacta e um teor mais elevado de parênquima que os seis órgãos Fu. São chamados também de órgãos-armazém porque, além de suas funções fisiológicas, recebem e armazenam formas de energia vital, o chi, e ainda a produzem e transformam. Os seis órgãos Zang são o Coração, o Pericárdio ou Circulação-Sexo, os Rins, os Pulmões e o Baço-Pâncreas.

Uma maneira fácil de lembrar quais são os órgãos Zang é: os órgãos que comemos são todos Zang; não é costume comer os órgãos Yang, pelo menos no Ocidente.

Os seis órgãos Yang são chamados de Fu. O ideograma Fu significa "oco". Os órgãos ocos são o Estômago, o Intestino Delgado, o Intestino Grosso, a Beixa, a Vesícula Biliar e o chamado Triplo-Aquecedor. A principal função dos órgãos Fu é tomar e digerir os alimentos, a absorção das partes nutritivas pelo sangue e a expulsão dos detritos pela urina, pelo suor e pelas fezes. A tarefa do Triplo-Aquecedor é a regulação da temperatura corporal e a coordenação das funções do peito, do ventre e da pélvis, além da coordenação entre a profundidade e freqüência da respiração, da circulação, da digestão e da sexualidade.

Cada elemento é atribuído um órgão Zang e um órgão Fu. Esses pares de órgãos receberam o nome de "órgãos acoplados". Suas funções fisiológicas, emocionais, intelecutais e espirituais estão estreitamente ligadas entre si, como, por exemplo, as funções dos Rins e da Bexiga, do Fígado e da Vesícula Biliar. Todo órgão Zang materializa a força Yin e todo órgão Fu representa a força Yang do mesmo elemento.


OS MERIDIANOS

Os meridianos são canais diminutos do corpo por onde flui a energia vital ou chi. Os pontos de acupuntura ou acupressura são aberturas do sistema de meridianos na superfície do corpo, por onde é possível afetar o fluxo de chi.

A medicina chinesa tradicional vê os meridianos como uma rede que une o interno ao externo: os órgãos internos à superfície do corpo, os tecidos caos órgãos sensoriais, as emoções aos pensamentos, Yin a Yang, a terra ao céu. O sistema de meridianos é composto de canais de energia que se encontram sobretudo no eixo longitudinal do corpo. Como exceções podemos lembrar os vasos Lo e como meridiano principal o Dai Mai, um dos oito vasos maravilhosos ou meridianos excepcionais, que rodeia a cintura como um cinto.

A rede dos canais de energia parece-se, em sua estrutura básica, com o sistema dos meridianos da Terra: os meridianos dos órgãos correspondem, nessa comparação, aos graus de longitude, os vasos Lo aos graus de latitude e o Du Mo ao equador. No Huang Di Nei Jing, a obra clássica do Imperador Amarelo sobre a medicina interna, datado aproximadamente do século III a.C., é descrito com detalhes e precisão o trajeto dos meridianos e o efeito dos pontos de acupuntura. Neste livro há comparações dos meridianos com grandes rios da China que atravessam o país, regam-no e fertilizam-no. O ideograma chinês para meridiano é Jinge significa "rio, caminho ou trilha", mas também "vaso sangüíneo".

O trajeto dos meridianos segue, durante uma parte, o trajeto dos vasos sangüíneos e dos nervos, e o chi, por outro lado, flui por gretas e canais finíssimos do tecido conjuntivo. Essas gretas formam-se sobretudo pelas diversas ligações dos músculos e grupos de músculos, assim como pelas capas de tecido conjuntivo que envolvem grandes partes do corpo como, por exemplo, a Fascia thoracolumbalis.

No Huang Di Nei Jing são descritos os 44 Jings, ou meridianos, com seu trajeto e sua função. Entre os mais importantes estão os doze meridianos e seus doze ramos profundos, que passam pelo interior do corpo e unem cada meridiano dos órgãos a seu órgão de origem e aos outros órgãos. No livro do Imperador Amarelo também são descritas as oito grandes correntes, também chamadas de "oito vasos maravilhosos" ou "meridianos milagrosos". Entre eles destancam-se sobretudo o Ren Mai(ou o Vaso da Concepção) e o Du Mai (o Vaso Governador), que percorrem a linha central da parte da frente e da parte de trás do corpo. Dizem que são "o mar de Yin" (Ren Mai) e "o mar de Yang" (Du Mai), e constitui o coração do sistema de meridianos. O conteúdo do Tao curativo é os cinco elementos e os doze meridianos dos órgãos correspondentes, motivo pelo qual não se fala aqui do Ren Mai, nem do Du Mai. Este tema é tratado detalhadamente em outro livro do autor, intitulado Tao de la medicina (1996, Editorial Haug).

Os doze meridianos dos órgãos formam pares: a cada meridiano Yin corresponde um meridiano Yang do mesmo elemento. Por isso se fala de "dois meridianos acoplados", cuja energia flui por dois canais ou represas, os vasos Lo, por meio dos quais eles se equilibram mutuamente. Cada meridiano de um órgão tem seu próprio vaso Lo, que vai desde esse ponto Lo até o ponto Yuan(ou ponto Fonte) do meridiano acoplado. É através dos vasos Lo que se restabelece o equilíbrio de um órgão e do meridiano correspondente, sobretudo mediante o meridiano acoplado, que sofre excesso ou falta de chi.

A função dos meridianos e dos valos Lo é a provisão de chi aos órgãos e tecidos, uma função parecida com a da circulação sangüínea, que leva oxigênio e substâncias nutritivas a todas as partes do corpo. A saúde de um órgão interno, a força dos músculos e tendões, ossos e dentes, assim como a sensibilidade, a compaixão, o amor, a segurança em si mesmo e uma mente clara está garantida sempre que houver energia vital suficiente nas zonas correspondentes, e que ela flua.

Os exercícios propostos neste livro estimulam o fluxo de chi pelos meridianos e seus órgãos, tecidos e órgãos sensoriais correspondentes. Se forem praticados com regularidade, ajudam a manter a saúde, impedindo o surgimento de doenças – cujo primeiro estágio costuma ser causado pela falta prolongada de chi, e só muito tempo depois é que surgem os primeiros sintomas físicos – e promovem uma integridade orgânica de corpo, emoções e pensamentos.

CHI, A ENERGIA VITAL

Chi é a palavra chinesa para força vital ou energia vital. A palavra japonesa correspondente é kie, na ioga, a mesma essência vital é chamada de prana. A maioria das culturas antigas têm o conceito de uma força vital com presença universal, que circula no ar, na água, na terra, nas plantas, nos animais e também no organismo humano. Trata-se de uma essência vital que está além das estraturuas subatômicas – uma energia que se encontra em todas as formas materiais e se concentra nos organismos vivos.

Mesmo que Paracelso e Mesmer, médicos europeus dos séculos XVII e XVIII respectivamente) tenham trabalhado e curado com a idéia de uma energia vital, esta perdeu a importância nas escolas ocidentais. O conhecimento e a manipulação da essência vital foram substituídos por um enfoque unilateral, que dá preferência a tudo o que é físico – e quimicamente medido.

Wilhelm Reich foi um médico austríaco e aluno de Freud que teve de fugir do nazismo na década de 1930 para os Estados Unidos. Foi o primeiro investigador do século XX a redescobrir a força vital universal, que chamou de "orgon", e demonstrou sua existência com experimentos científicos. Construiu acumuladores, cuja função consistia em densificar a concentração da energia vital disponível para aplicação posterior no campo da medicina e do aumento do bem-estar. Na atmosfera hipócrita e de visão estreita das décadas de 1940 e 1950 dos Estados Unidos, suas descobertas enfrentam uma grande resistência nos círculos médicos e sobretudo da Federal Drug Administration (FDA), que o acusou diretamente de farsante pela divulgação dos acumuladores de orgon. Como ele não respeitou a proibição, foi castigado com uma temporada na prisão, e seus livros foram queimados em praça pública. Wilhelm Reich, que durante muito tempo foi perseguido pelo desenvolvimento de sua "Vegetoterapia", a primeira forma de psicoterapia com orientação física que surgiu no Ocidente, e também por suas idéias socialistas e comunistas, não suportou esta última humilhação e morreu no cárcere.

Enquanto os norte-americanos não queriam nenhum envolvimento com o conceito de energia vital, os soviéticos dedicaram-se, também por razões militares e estratégicas, a realizar muitos experimentos com a força vital, que denominaram de "bioplasma". Seus trabalhos científicos levaram, entre outras coisas, ao desenvolvimento da fotografia Kirlian, que torna visível o campo energético ou aura dos organismos, bem como da matéria inerte.

As civilizações muito evoluídas da Índia e da China desenvolveram há três ou quatro mil anos atrás, técnicas de meditação e métodos terapêuticos para prevenir e curar enfermidades com o aumento da concentraçãoda energia vital. Na Índia, sobretudo nos Vedas e Upanishads, foram expostos diversos sistemas de ioga física e espiritual como, por exemplo, a Hatha-Ioga, a Bhakti-Ioga e a Raja-Ioga. Na China já são diferenciadas as diversas formas do chi, que são percebidas e utilizadas terapeuticamente.

Os conceitos mais importantes da medicina chinesa relacionados à força vital são Shi e Hsu. Shisignifica abundância ou excesso de chi, que se manifesta sob a forma Yang, com sintomas de calor como inflamações, dores pungentes e febre. Hsusignifica falta de provisão ou carência de chi, que nos leva com freqüência a Yin, ou sintomas de frio, como estar desequilibrado, ter sensação de surdez, edemas e dores crônicas, ou estar mesmo surdo. Com os exercícios dos meridianos descritos neste livro é possível, se eles forem praticados regularmente, equilibrar o excesso ou insuficiência de chi nos diversos meridianos e, por conseguinte, nos órgãos correspondentes, melhorando com isso a saúde e a qualidade de vida.

Os chineses fazem uma distinção entre o chi adquirido e o chi inato que herdamos de nossos pais e antepassados, ao qual chamam de "energia ancestral". Essa energia fica armazenada nos rins. A energia ancestral é necessária para o corpo utilizar o chi que se encontra no ar e nos alimentos.

O Aquecedor Médio – no ventre – é a estufa onde se "cozinha" a energia substancial ou Zong chi dos alimentos e dor que ingerimos. A energia ancestral é o combustível necessário para o processo de cozimento. O Zong chi, que se produz no ventre, flui para cima, para o peito, abastece o coração e os pulmões e se diferencia em Zong chi e Wei chi. Yong chié a forma de chi que nutre e constrói a substância corporal. Wei chié a energia protetora que defende o organismo contra as influências nocivas do exterior.



AS CINCO FORÇAS NATURAIS OU OS CINCO ELEMENTOS


Com os conceitos taoístas dos cinco elementos descreve-se minuciosamente a relação entre as forças naturais, o corpo e o espírito. Em todas as manifestações da natureza, entre as quais está incluído o ser humano, observa-se o efeito das mesmas forças e leis.

Na cultura ocidental foram formuladas as leis do mundo físico. Elas se limitam a aceitar unicamente aquilo que pode ser medido com métodos físicos e não podem ser aplicadas ao mundo das emoções e pensamentos, nem ao mundo da fantasia e da intuição. Isso nos levou a uma cultura unilateral, descrita em várias ocasiões: nossos conhecimentos do mundo material são muito ricos, precisos e variados e, apesar disso, nosso conhecimento das leis do mundo espiritual e psicológico é pobre, confuso e especulativo. Essa superioridade unilateral se expressa de tal modo que não nos damos conta das limitações que encarceram nossa mente. Um estudo sobre o I Ching*, o Livro das Transformações, o mundo espiritual dos lamas tibetanos, mestres zen japoneses ou xamãs indígenas mostra a existência de dimensões que superam de muito o psicológico e o conhecimento religioso das culturas européias.

A antiga cultura chinesa formulou as leis da natureza de tal modo que conseguiu explicar tanto os fenômenos observados no mundo material quanto os do mundo espiritual, além de encontrar uma relação enter eles de acordo com essas mesmas leis. A separação entre um mundo material e outro imaterial não existia, ao menos segundo nosso ponto de vista. Nas pessoas daqueles tempo existia a crença de que o mundo é um jogo de conjunto, de espíritos e demônios, de forças e de elementos naturais.

Como nas culturas que não dispõem de uma proteção técnica, essas pessoas tinham medo e um enorme respeito pelas forças naturais:o calor do verão que causa a seca, os tufões, as ondas gigantescas ou a ira dos deuses que se expressa no trovão. Era necessário invocar os espíritos protetores e contentar os demônios. Terra e fogo, céu e água eram divindades, cujos sinais era preciso levar em conta caso se quisesse sobreviver.

Os seres humanos começaram a observar e reunir experiências, que depois transmitiam de geração a geração. Observaram os ciclos da vida, o trajeto dos astros, as mudanças das estações e o firmamento. Também observaram os fenômenos da natureza na estreita relação com o homem, seus sentimentos, sua maneira de pensar, seus sonhos e suas doenças.

Nessas observações se cristaliza o ensino do Tao, que se descreve também como "o inominável, aquilo que dá origem a tudo sem ter direção alguma, nem vontade, nem objetivo. Aquilo que é." Do Tao surge a polaridade: Yin e yang, terra e céu, matéria e energia. De Yin e Yang nascem os Cinco Elementos que fazem surgir o mundo tal como é, que lhe dão forma, que o mantêm e o dissolvem de novo. É

importante compreender que nosso conceito de "elemento" não tem nada a ver com o conceito chinês. Os chineses não entendem elemento como uma substância material, e sim como uma força ou dimensão do universo. Vemos nas traduções que o conceito de elemento não se reduz a forças da natureza; descreve, ao contrário, as regularidades geralmente aceitas, ou princípios. Ao falar de elementos eles estão se referindo a fases de transformação da variedade de manifestações, da descrição de estados energéticos que voltam regularmente, coisa que coincide de maneira surpreendente com os conhecimentos da física moderna, sobretudo com sua idéia básica, a mecânica quântica e a Heisenbergsche Unschärferelation. Cientistas reconhecidos como Niels Bohr e Fritjof Capra reconheceram e demonstraram essa correspondência.

Segundo a visão chinesa, os Cinco Elementos expressam-se em todas as manifestações do cosmo: no firmamento, nas estações do ano, no clima, nas estrelas, nas plantas e nos animais, e também nos estratos rochosos e no ser humano. Os sentidos, órgãos e tecidos dos seres vivos acompanham os elementos, assim como os sentimentos e faculdades espirituais. Os elementos são forças que se mantêm mutuamente em equilíbrio, que se produzem mutuamente, que se transformam umas nas outras e se reprimem umas às outras. Quando a relação de forças dos elementos está em desequilíbrio, este se manifesta no ser humano como mal-estar e doença, e numa sociedade com debilidade, injustiça e guerra. Quando os elementos num ser humano, assim como num povo ou num país, encontram-se em igualdade de forças e em equilíbrio, há harmonia, saúde e beleza.




PARTE III

O ELEMENTO FOGO

A força do Fogo manifesta-se ao meio-dia e no sul (no hemisfério norte), em todas as épocas de floração, no calor e no verão. No ciclo Sheng o Fogo vem depois da Madeira: com a madeira se faz fogo. É chamado de Yang velho. No organismo humano o fogo é representado pelo Coração e pelo Intestino Delgado, pelo Pericárdio ou Mestre do Coração (Circulação-Sexo) e pelo Triplo Aquecedor. Manifesta-se também na língua e nas artérias, veias e capilares. Seu líquido corporal é o suor.

A natureza da Madeira é a expansão e o crescimento em todas as direções. A força do Fogo está dirigida verticalmente para cima. Vem das profundezas da terra para o céu, da matéria para o espírito, da esfera apática para a consciência. A força do Fogo toma a direção contrária à da força da gravidade. No campo espiritual-emocional o Fogo gera a alegria, a dança e o riso, a visão glohal e a consciência. Suas cores são o escarlate e o vermelho

Na China antiga havia uma cultura da corte com hierarquias rigorosas. A ordem social, cujo centro era o imperador e sua corte, considerava-se responsável pela harmonia entre o céu e a terra. Ao contrário da filosofia grega, que se baseia no cosmo e em suas leis naturais, e da filosofia indiana, com seus Vedas e suas Upanishads que entendem o ser interior dos homens como dimensão essencial do universo, encontramos no centro da cosmologia chinesa a ordem social e a ética. O comportamento correto dos homens leva a um comportamento correto da natureza. Quando a sociedade, a começar pelo imperador e sua corte, respeita as leis do Tao, o país fica a salvo de épocas de grandes secas, de epidemias, de fomes e de tufões. Essa visão social-mágica mantém a sociedade unida.

Essa maneira de ver as coisas impregnou também a medicina chinesa, onde se compara o organismo à corte e os diversos órgãos com as funções da corte. Por isso se diz: quando o homem individual cumpre suas obrigações sociais, respeita seus antepassados, acalma seus demônios e se mantém em contato com os espíritos elementares, que atuam através de seus órgãos, pensamentos e ações, mantém-se livre de enfermidades.

O órgão Yin do Fogo, o Coração, era chamado de príncipe do Fogo e soberano dos órgãos. Era considerado o centro da consciência, do sentir e do pensar. No coração manda Shen, o espírito do Fogo. O idelograma chinês Shen pode ser traduzido como "espírito", "alma", "Deus", "divino" e "eficácia". Quando dizemos que alguém tem "espírito", refletimos o significado desse ideograma.

Shen tem duas residências. A residência de baixo é o Coração, a partir de onde se encarrega de equilibrar os sentimentos e de favorecer uma maneira de falar sincera. Sua residência de cima é o terceiro olho, ou o chacra da frente, onde cria clareza de pensamentos e consciência no modo de viver. Quando essas faculdades são encontradas numa pessoa, seu Shenestá cheio de força e saúde. Isso se vê no brilho e na luz de seus olhos.

Quando o Shen está confuso e sem força, esse estado se manifesta em pensamentos pouco claros, falta de capacidade de pensar, uma maneira pouco clara de falar que pode levar a pessoa a pronunciar mal as palavras, a murmurar, balbuciar, gaguejar e até à mudez; tem altos e baixos emocionais muito grandes e diversas formas de histeria e de psicose maníaco-depressiva. Um Shen disperso e confuso expressa-se em nervosismo, pânico, medo do público, insônia e um olhar opaco. Todos esses sintomas têm sua base num transtorno do elemento Fogo.

Quando a energia de Fogo está intensa demais no Coração – os chineses a chamam de Shih, excesso – o exagero expressa-se num dilúvio de palavras, fofocas, suor em excesso e tensão nervosa. Essas pessoas acreditam que podem resolver tudo sozinhas, que podem controlar tudo. Muitas vezes não são capazes de delegar responsabilidades aos outros. Esta é uma característica dos estados emocionais e mentais da doença de mandar, que provoca amiúde um enfarte cardíaco ou uma insuficiência cardíaca. As investigações modernas da medicina ocidental sobre estresse, doenças causadas pelo estresse e tipos de personalidade que tendem à hipertensão e ao enfarte concentram-se naquele estado que os chineses denominam de Shih do Coração. Como veremos mais adiante, esse desequilíbrio surge na maioria dos casos por falta de energia do elemento Água.

Quando a energia do Fogo está muito fraca no Coração – o que se chama Hsu, deficiência – surgem as dificuldades de expressar-se clara e compreensivelmente, e a pessoa pode até ficar "sem fala", com o sentido do paladar reduzido ou ausente, tanto na língua quanto na psique.

O segundo órgão Yin do Fogo é o Pericárdio, também chamado de Mestre do Coração, ou Circulação-Sexo. É definido pela tradição chinesa como um primeiro-ministro ou chanceler do príncipe do Fogo, seu guarda-costas, o protetor do Coração ou sua fechadura. Sua tarefa é proteger o príncipe de danos e derrotas, transmitir suas instruções aos empregados e servos da corte e informar o príncipe do bem-estar destes últimos. No ser humano gera a generosidade consigo mesmo e com os outros, e a capacidade de irradiar calor e amor. O Mestre do Coração mostra-se em sua capacidade de dar e de saber acolher as dificuldades, as queixas, as críticas e o amor dos outros. Quando essa capacidade está bem desenvolvida, a pessoa é capaz de tomar algo "a peito", ou de deixar o seu coração falar. É carinhosa e calorosa. No outro extremo estão as pessoas que dizemos ter um coração frio, um coração de pedra, que são mesquinhas e que não lhes toca o coração. Nesse contexto seria interessante observar que uma pericardite que transcorre com dificuldade pode se converter, a nível orgânico, na chamada "couraça do coração".

Na fisiologia chinesa estão incluídas nas funções do Coração e do Pericárdio também o sistema circulatório e sua regulação. Por ele passam as artérias e veias como um "tecido" que pertence ao Fogo. Trata-se aqui de uma unidade funcional de coração, pericárdio, vasos sangüíneos e todos os hormônios e mecanismos de regulação que, aumentando ou reduzindo os vaoso, mantêm e dirigem a circulação sangüínea. Nos textos chineses clássicos o Mester do Coração é chamado muitas vezes de Rim-Yang, e parece comprovado que se trata do conceito mais antigo. Na medicina chinesa mais recente, o Rim-Yang está associado às glândulas supra-renais, cuja função principal, além de sua tarefa relacionada ao metabolismo, é dirigir a circulação sangüínea e manter o equilíbrio hídrico e dos eletrólitos. Essas definições mostram até que ponto o Mester do Coração assume uma postura central entre o Rim e o Coração, entre Água e Fogo, entre o pólo superior e o pólo inferior do ser humano.

Nesse contexto é preciso mencionar que os chineses diferenciam no organismo humano seis camadas de energias. Cada uma delas é nutrida, mantida e regulada por dois órgãos. A mais profunda dessas camadas, o núcleo de nosso corpo e de nossa personalidade, é composta pelos Rins e pelo Coração. Em alemão há um provérbio que reconhece essa relação: "provar alguém de rim e coração" (no sentido de colocá-lo à prova). Coração e Rim constituem a polaridade de Fogo e Água, de céu e terra, de cima e debaixo, de Deus e do Demônio, de Zeus e Hades, de Júpiter e Plutão, é o eixo vertical do ser humano. Num sentido mais amplo, é também a polaridade de cabeça e tronco.

Enquanto na Índia Shiva, o destruidor, é cultuado em igualdade de direitos com Brahma, o criador e com Vishnu, o conservador, e na China se considera fundamental o equilíbrio entre o que está em cima e o que está embaixo, a direita e a esquerda como uma meta a ser alcançada, a cultura ocidental atribui ao pólo de cima uma valoração de superioridade. Essa valoração levou a uma aspiração unilateral pelo alto e pelo bom, "de chegar ao céu" e, por outro lado, a criar o mal e o conceito de inferno. De acordo com essa idéia, as culturas ocidentais valorizam as regiões do Fogo – o amor, a língua e o espírito ("No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus" é o início do Evangelho de João) – muito mais que as profundezas da Água – sexualidade, meditação e contemplação das camadas arcaicas da alma.

Uma relação existente entre o Rim e o Coração através do Mester do coração revela-se numa sexualidade satisfatória, que causa alegria e até o riso. Há um intercâmbio harmônico entre o dar e o receber, na capacidade de saber dar e receber amor. É característico que nossa cultura, embora libere a sexualidade de sua condenação, valoriza mais o orgasmo físico, que é uma função do elemento Água, que o espiritual.

Ainda que o Coração e o Pericárdio sejam os órgãos Yin do mesmo elemento, diferenciam-se bastante em seu campo de atuação. O Coração é responsável basicamente pelos "assuntos interiores". Suas funções são a clareza de pensamento, da linguagem, a responsabilidade e a capacidade de ter entusiasmo. Os nomes de alguns pontos do meridiano do Coração confirmam essa declaração. Shenmen (C7) significa "porta do espírito" ou "porta da consciência", Tongli (C5) significa "contato com o interior". Mas o Pericárdio é responsável pelos "assuntos exteriores" e regula o batimento e a freqüência cardíaca a nível orgânico, e a circulação do sangue. Um sintoma de falta de energia no Pericárdio é mãos e pés frios. Uma pessoa que tem pouco calor carece de energia no Pericárdio, assim como aquela que vive a sexualidade com pouca alegria; uma pessoa tacanha, a quem custa muito dar; uma pessoa que demora muito a "esquentar", ou uma pessoa fechada que nunca sorri.

Na verdade os pontos do meridiano do Coração são utilizados sobretudo para o tratamento de transtornos psíquicos como insônia, nervosismo, histeria, depressão e epilepsia, assim como transtornos da fala e dificuldades de ouvir os outros. Os pontos do meridiano do Pericárdio ajudam mais no caso de doenças cardíacas a nível físico como, por exemplo, dor no coração, angina pectoris, taquicardia, transtornos do ritmo cardíaco e debilidade circulatória. Mas alguns deles têm uma ação marcadamente psíquica.

O órgão Yang acoplado ao Coração é o Intestino Delgado. A chave da compreensão de sua função é a assimilação dos alimentos no processo de digestão. Do mesmo modo que a nível orgânico o Intestino Delgado se encarrega da absorção dos alimentos pelo sangue, também é responsável no espiritual pela assimilação de idéias. A falta de energia no Intestino Delgado é vista nas pessoas que absorvem conhecimentos, convicções e idéias fixas de outras pessoas sem antes digeri-las e que não conseguem formar, segundo seus próprios critérios, as próprias visões. Uma pessoa que tem a capacidade de assimilar é reconhecida por um sorriso sutil e silencioso nos olhos e em redor dos lábios.

O Mestre do Coração é acoplado ao órgão Yang Sanjiao, o Triplo-Aquecedor, um órgão que é mais um conjunto de funções que uma realidade orgânica. Segundo os ensinamentos chineses, existem "três cavidades ardentes" no organismo: a cavidade torácica (para a função respiratória), a cavidade abdominal (para a função) digestiva) e a cavidade pélvica (função excretora e reprodutiva).

A tarefa do Triplo-Aquecedor é coordenar entre si esses espaços funcionais como, por exemplo, ajustar a profundidade e freqüência da respiração aos processos de digestão ou sexualidade, e a regulagem da temperatura e do equilíbrio. Parece que o conceito chinês de Sanjiaoengloba vários centros de regulagem da temperatura corporal no cérebro, sobretudo no hipotálamo. O Triplo-Aquecedor é o mais complexo e, por isso mesmo, a conexão de funções do organismo mais fácil de desequilibrar. Nos textos clássicos aparece como mininistro do exterior do Fogo, como protetor dos órgãos Yin e Yang, e como ministro da energia, que supervisiona as diversas formas de chie garante sua distribuição por todo o corpo.

Quando o Fogo está em equilíbrio numa pessoa, o verão lhe traz alegria e satisfação. Uma pessoa assim tem equilíbrio interior e contempla os acontecimentos desse ponto de vista. Sabe quando deve falar, e quando deve car-se. Alegra-se sem cair no pieguismo, sabe guiar e dirigir os outros e sabe também quando é hora de se retirar. Seus olhos brilham. Conhece a bondade e a generosidade, e tem bom gosto.
*Uma versão deste livro pode ser encontrada na coleção Arca da Sabedoria, do Editorial Edaf.



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